O maior desafio é aquele que não se vê: primeiro ensaio sobre as alterações climáticas

O maior desafio é aquele que não se vê: primeiro ensaio sobre as alterações climáticas

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É inevitável: o clima está a mudar e a forma como vivemos e nos relacionamos também. Transversais a todas as áreas da nossa sociedade, os fenómenos que provêm da mudança climática têm impacto no ordenamento do território, na gestão da água, no tratamento dos solos e resíduos, na agricultura, no turismo, na alimentação, pecuária, pesca e na saúde pública.

Começa a não ser segredo para ninguém que efectivamente existem alterações transversais a todas as áreas que dizem respeito à vida na Terra, desde os últimos 30 anos, em que há registos científicos sobre as mesmas e que são reais, de hoje e particularmente profundas.

O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicado a 8 de Outubro de 2018 prevê um aumento de temperatura média na ordem de 1.5ºC até 2040 e o ano de 2016 foi declarado o mais quente de que há registo a nível global. Em termos práticos esse aumento de temperatura significa perda de habitats naturais e de espécies importantes, fundamentais para o equilíbrio da Natureza tal como ainda a conhecemos, assim como a diminuição das calotas polares e aumento do nível do mar, que se reflecte no desequilíbrio de actividades económicas, no aumento da poluição atmosférica e na transformação dos solos e consequentemente nos seus usos e proveitos para a alimentação humana.

Não tenhamos medo de o afirmar: o Acordo de Paris tem falhado a larga escala. As medidas negociadas (muitas delas promessas estéreis que não passam do papel) são insuficientes para travar o aumento progressivo da temperatura. Não existe um compromisso sério à escala mundial para entender o problema das alterações climáticas como algo grave que no limite, levará à extinção da Vida tal como a conhecemos.

Extremistas dirão uns. Alarmistas dirão outros. A verdade é que quanto mais o combate às alterações climáticas for adiado, maiores serão os impactos sentidos, muitos deles irreversíveis, como por exemplo, a extinção de algumas espécies animais ou até mesmo, a alteração do uso dos solos para cultivo de alimentos ou a própria racionalização da água que se quer eficiente e sustentável, como bem escasso que (cada vez mais) é.

Se é verdade que à escala mundial assistimos ao desenvolvimento global a duas velocidades, onde o hemisfério norte usufrui do desenvolvimento tecnológico em todas as áreas para atingir graus de satisfação económicos capazes de fazer face ao seu próprio desenvolvimento, é no hemisfério sul que o reflexo desse mesmo desenvolvimento desenfreado acontece, verificando-se já os primeiros casos de refugiados climáticos: movimentos migratórios consideráveis de populações que fogem à seca extrema, que leva à desertificação e degradação ambiental ou às inundações violentas que surgem, por exemplo, pela interrupção de eventos climáticos naturais sazonais, como as monções. A ONU reconheceu, pela primeira vez em Dezembro de 2018, a migração climática como uma crise humanitária eminente.

A uma escala mais próxima, Portugal (que é um dos países mais vulneráveis às alterações climáticas) tem sido fustigado de uma forma sem precedentes e que a todos nos deve preocupar. As mudanças não estão previstas para daqui a 50 ou 100 anos. Já estão a acontecer.

A temperatura média já aumentou 0.85ºC desde a revolução industrial, o que faz com que haja uma maior frequência e intensidade de fenómenos extremos, cujos modelos climáticos indicam uma assimetria sazonal, com secas mais extremas e prolongadas a sul e inundações (que afectam a qualidade da água) através de uma precipitação intensa por curtos espaços de tempo a norte. A subida do mar poderá aumentar a salinização dos lençóis freáticos o que significará uma eventual transferência de água entre bacias hidrográficas e a consequente construção de barragens, com todas as mudanças da paisagem natural do território e uso dos solos que daí advém.

Devido às ondas de calor e secas prolongadas extremas, também as linhas de distribuição de electricidade, aerogeradores e gasodutos poderão apresentar problemas, o que faz com que o preço da luz aumente, embora haja um maior aproveitamento de produção de energia fotovoltaica (apenas para mencionar algumas das áreas mais afectadas). Por outro lado agravarão igualmente o risco de mortalidade sobretudo junto das pessoas mais vulneráveis, assim como o aparecimento de doenças tropicais como a dengue ou a malária.

Embora este aumento de temperatura seja irreversível, é possível, desejável e imperativo que os nossos governantes tomem medidas de mitigação e adaptação às alterações climáticas sérias e capazes. O perfil do governante/decisor não é só o perfil da obra feita, da escola construída ou da rotunda que se inaugura numa data especial.

Esse perfil, ultrapassado e que teima existir e persistir nos dias de hoje (não só em Portugal, mas a nível global, salvo honrosas excepções) não dá resposta às necessidades actuais emergentes e urgentes que são necessárias. A prova são os vários estudos que têm surgido sobre o tema, os planos que têm sido delineados a várias escalas com diversos objectivos, as medidas no terreno, que teimam fazer a diferença e as manifestações sentidas, muito em particular a ultima do passado dia 15 de Março, a primeira à escala mundial e com carácter estudantil.

Pela primeira vez, os jovens têm uma voz activa e audível sobre um problema que afectará os seus filhos e pedem (e bem) “contas” a quem actualmente governa e a quem não reconhecem os seus conhecimentos para actuar num problema que não se vê, mas que se sente progressivamente.

Não basta querer mais áreas ajardinadas na sua localidade ou sistemas de microgeração nos seus telhados. Não chega ensaiar projectos para a construção sustentável e promover medidas avulsas escudadas por chavões como “sustentabilidade” ou “amigo do ambiente”.

É imperativo ser-se audaz e ambicioso. Comprometer políticas públicas musculadas para a próxima década ou décadas, que seja maior do que a ambição autárquica para quatro anos. Um compromisso sério, um contrato inquebrável com as futuras gerações, onde de facto haja um caminho claro, mensurável e ambicioso de combate às alterações climáticas, que norteie as decisões sectoriais das restantes áreas de actuação.

É inconcebível que não se projecte/recupere/gira cidades e o seu ordenamento do território sem ter em conta termos tão simples como “ilhas de calor”, materiais de revestimento, corredores verdes de arejamento, rede de transportes públicos eficientes e que cubram a uma larga escala o território em questão, medidas efectivas de gestão da água e do uso dos solos, educação ambiental séria, promoção de uma alimentação sustentável que se coadune com as problemáticas das alterações climáticas (e não só pela questão da saúde, também ela importante), medidas de sensibilização efectivas que promovam a saúde publica e tantas outras acções que tornariam esses mesmos territórios dignos do século XXI e dos problemas que importam combater, tendo em conta uma visão estratégica de médio/longo prazo, de quem efectivamente se importa.

São precisas mais Gretas Thunberg. Mais olhares audazes, mais vozes claras e sem preconceitos, mais gente capaz e formadas. No passado dia 16 de Março, António Guterres, Secretário-Geral da ONU dizia: “Estamos na corrida das nossas vidas. E estamos a perder. O mundo precisa de uma mudança radical para responder ao desafio das alterações climáticas” num artigo de opinião publicado no diário britânico The Guardian, onde ainda afirmava com total desprendimento que é necessário “acabar com os subsídios para os combustíveis fósseis e a agricultura e mudar para a energia renovável, veículos eléctricos e práticas amigáveis do clima”.

Felizmente existem honrosas excepções que começam a dar os primeiros passos no planeamento estratégico desta matéria nas suas áreas de actuação, ou até mesmo outros que, visionários do seu tempo, já correm com projectos com provas dadas no terreno.

A mudança começa a existir e não pode ser de outra forma. Cabe-nos a todos fazer parte da solução, assim haja essa coragem e a capacidade de unir por um bem comum.

 

 

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