Sustentabilidade vs Desenvolvimento Económico do Território

Sustentabilidade vs Desenvolvimento Económico do Território

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Nos últimos tempos muito se tem falado do enorme desenvolvimento económico do Alentejo como consequência da agricultura. A alteração da paisagem é o primeiro sinal que o Alentejo deixou de ser o sequeiro pontuado por sobreiros, campos de trigo e gado, onde a lógica passa agora pela maximização do lucro/hectare por via de uma de uma agricultura intensiva de monoculturas que estendem por centenas e centenas de hectares.

 

Ninguém pode questionar o valor inequívoco do Alqueva, numa escala maior, ou da Barragem de Santa Clara como grandes eixos promotores do aproveitamento e desenvolvimento hidroagrícola. Porém, a qualidade de vida nos territórios não se mede apenas pela capacidade de gerar riqueza através da exportação dos produtos hortofrutícolas produzidos neste imenso Alentejo. A riqueza de um território mede-se também pela qualidade de vida que proporciona aos que lá vivem e, a essa, estão associados um cem número de fatores.

 

Tendo eu origens familiares ligadas à produção agrícola, animal e florestal nos concelhos de Odemira e Santiago do Cacém, revejo-me numa lógica de diversidade dentro da exploração ao invés da lógica de monocultura intensiva, algo que não é visto pelas empresas como viável. Sabemos que o objetivo de uma empresa é dar o maior lucro possível, mas uma empresa tem também responsabilidades sociais e deve adaptar-se ao território onde instalou a sua atividade e analisar se esta é compatível com as condicionantes existentes e se este tem capacidade de responder às suas necessidades de operação.

 

Neste momento existe um crescimento abrupto do setor agrícola no Alentejo. As grandes multinacionais instalam-se por este vasto território alegando que este cantinho é um dos melhores lugares do mundo para a produção hortofrutícola.

 

Entre Odemira e Aljezur, por exemplo, prolifera a produção de frutos vermelhos onde são necessários cerca 10 trabalhadores por hectare durante os períodos de campanha. São já cerca de 1200 hectares de estufas no Perímetro de Rega do Mira que têm sobreposto o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Estes números representam a chegada de milhares de migrantes a um território que não está infraestruturalmente e socialmente preparado para os receber e onde o problema existe e começa a colocar em causa a qualidade de vida de quem ali vive e depara-se com dificuldades diárias nos serviços públicos, saneamento e fornecimento de água, saúde, educação ou habitação.

 

Segundo o ICNF, sobre o estado do solo, do ar e água nada se conhece sobre o impacto da atividade agrícola e autorizam-se cada vez mais investimentos em monoculturas intensivas, valorizando o seu forte impacto para a economia do país. Aqui, sou crítico em relação aos Organismos Públicos e com o próprio Governo até ao momento, nomeadamente no que se refere à falta monitorização e fiscalização, alegando falta de meios humanos para o fazer, resultando num total desconhecimento da realidade ambiental do território que apresenta já bastantes alterações à vista de todos e que não estão apenas associadas às alterações climáticas.

 

Neste sentido, no que se refere à zona do litoral alentejano aguardo com enorme expectativa que decisões serão tomadas pelo Governo como resultado das questões levantas e propostas apresentadas pelo Grupo de Trabalho do Mira no que se refere à necessidade urgente de conciliação a nível social, ordenamento do território, ambiente e agricultura no Perímetro de Rega do Mira.

 

Defendo o desenvolvimento sustentável de um território, onde há lugar para todos, preservando as suas características intrínsecas e promovendo o seu desenvolvimento com base na equidade. Neste imenso Alentejo há de facto um potencial hidroagrícola ímpar, mas há também valores ambientais e naturais com características únicas a nível mundial, reconhecidos inclusivamente pela UNESCO. Há, simultaneamente, uma enorme procura e oferta turística que cresce todos os anos e que e contribui para a consagração de Portugal como melhor destino a nível mundial e que não podemos ignorar.

 

Assim, depressa chegamos ao que falava há pouco e que estabelece um paralelo com a minha lógica de exploração agrícola, ou seja, encontrar o equilíbrio através da conciliação de uma oferta diversificada que garanta a qualidade de vida da população, promovendo o desenvolvimento e gerando riqueza para o território.

 

 

 

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